A floresta mais exuberante do planeta cresce, em boa parte, sobre solos pobres em nutrientes. Na visão de Alfredo Moreira Filho, fundador e management do Grupo Valore+, essa contradição explica por que produzir na Amazônia sempre exigiu mais conhecimento técnico do que em outras regiões, e também por que um tipo específico de solo desperta tanto interesse entre pesquisadores.
Trata-se da terra preta de índio, solo escuro e extremamente fértil, formado pela ação de povos que viveram na região há séculos. Hoje, ela serve de modelo para pesquisas que buscam melhorar a fertilidade de solos degradados e reter carbono na terra. Saiba, nas próximas linhas, o que torna esse solo especial e como a ciência tenta reproduzi-lo.
Floresta exuberante sobre solo pobre
Grande parte dos solos de terra firme da Amazônia é ácida, com baixa quantidade de nutrientes disponíveis para as plantas. A floresta se mantém graças a um ciclo rápido e eficiente: folhas, galhos e animais mortos se decompõem na superfície, e os nutrientes liberados são absorvidos quase imediatamente pelas raízes. A fertilidade está, portanto, muito mais na própria vegetação do que no solo.
Quando a mata é derrubada, esse ciclo se rompe. As chuvas intensas lavam o pouco que resta de nutrientes, e a produtividade cai em poucos anos, o que historicamente levou à abertura de novas áreas. Alfredo Moreira Filho observa que esse é um dos maiores desafios de quem trabalha com agricultura na região: produzir sem depender de desmatamento contínuo.
O que é a terra preta de índio?
Em meio a esses solos pobres, existem manchas de terra muito diferentes. A terra preta de índio, conhecida pela sigla TPI, apresenta uma camada superficial espessa, de cor preta ou marrom-escura, resultado do acúmulo e da queima de resíduos por populações que habitaram esses locais há mais de mil anos. Restos de alimentos, ossos de peixes e de outros animais, cerâmica e carvão foram se incorporando ao solo ao longo de gerações.

Pesquisadores estimam que essas áreas ocupem cerca de 3,2% da Amazônia, o equivalente a aproximadamente 154 mil quilômetros quadrados. Por sua origem, toda terra preta é também um sítio arqueológico, embora nem todo sítio arqueológico tenha esse tipo de solo. De acordo com Alfredo Moreira, a descoberta muda a forma de enxergar a relação entre os povos antigos e a floresta, já que mostra uma ocupação capaz de enriquecer a terra em vez de esgotá-la.
Do sítio arqueológico ao laboratório: o biocarvão
O segredo da fertilidade duradoura da terra preta está, em grande parte, no carbono vindo de material vegetal queimado de forma parcial. Esse carbono é muito estável e se decompõe lentamente, permanecendo no solo por longos períodos. A partir dessa observação surgiu o biocarvão, material rico em carbono obtido pela carbonização controlada de biomassa, como serragem, cascas e outros resíduos agrícolas.
Aplicado ao solo, o biocarvão ajuda a enriquecer o teor de carbono, melhora a estrutura da terra e aumenta a retenção de água. A Embrapa coordena uma rede nacional de pesquisas sobre o tema que reúne 18 de seus centros, e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, o Inpa, testa em sua estação experimental a reprodução da terra preta enriquecida com biocarvão. Esse esforço de imitar um solo criado por populações antigas é, na avaliação de Alfredo Moreira Filho, um dos exemplos mais interessantes de como a agronomia pode aprender com o passado.
O que ainda falta para chegar ao campo?
Apesar do potencial, o biocarvão ainda enfrenta obstáculos para ser adotado em larga escala. Produzi-lo com qualidade e custo viável continua sendo um desafio para os cientistas, já que as características do material variam conforme a matéria-prima, a temperatura e o tempo de queima. Também há necessidade de mais estudos sobre como levar a tecnologia à rotina dos produtores.
Há, por outro lado, ganhos que vão além da fertilidade. Ao reter carbono no solo de forma estável, o biocarvão pode contribuir para reduzir emissões e dar destino a resíduos que hoje se transformam em problema ambiental. Alfredo Moreira pontua que, se os desafios de produção forem superados, a herança dos antigos habitantes da Amazônia poderá ajudar a recuperar solos degradados em várias regiões do país.
