Levantamentos mostram quatro pré-candidatos empatados tecnicamente; analistas questionam a credibilidade dos institutos e o eleitor amazonense segue sem sinal claro
Faltam poucos meses para o primeiro turno das eleições de outubro e o Amazonas vive uma das disputas estaduais mais abertas do país. Isso seria uma boa notícia para a democracia se não fosse por uma complicação crescente: as pesquisas eleitorais publicadas ao longo dos últimos meses divergem de tal maneira entre si que mais confundem do que esclarecem. No cenário estimulado da pesquisa Projeta, divulgada em junho, o senador Omar Aziz lidera com 25,1% das intenções de voto, seguido pelo governador Roberto Cidade, com 22,4%. O prefeito de Manaus, David Almeida, registra 17,1%, enquanto Maria do Carmo soma 16,2%. Os quatro nomes estão separados por menos de dez pontos percentuais, o que significa, na prática, que qualquer um deles pode chegar ao segundo turno dependendo de movimentos ainda imprevisíveis como alianças de última hora, desgastes institucionais e o comportamento do eleitorado do interior. Em Tempo
A pesquisa ouviu quase três mil eleitores entre os dias 30 de maio e 4 de junho de 2026, distribuídos entre Manaus e 14 municípios do interior do estado, com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%. O levantamento também avaliou a rejeição dos nomes. David Almeida aparece com o maior índice de rejeição, alcançando 29,7%. Em seguida estão Omar Aziz, com 20,4%, e Maria do Carmo, com 17,5%. Roberto Cidade registra o menor percentual entre eles. Os dados de rejeição são frequentemente mais informativos do que os de intenção de voto, porque revelam os tetos eleitorais de cada candidato. Uma rejeição elevada indica que, por mais que o candidato avance no primeiro turno, enfrentará dificuldades no segundo para ampliar sua base. No caso de Almeida, a combinação de intenção mediana e rejeição alta sinaliza um perfil de candidato que mobiliza seu eleitorado mas tem dificuldade de conquistar os indecisos. Em Tempo
O problema com as pesquisas: oscilações que desafiam a lógica
O cenário eleitoral no Amazonas em 2026 seria interpretável se as pesquisas fossem consistentes entre si. Mas não são. Um estudo comparativo com 18 pesquisas registradas no TSE entre março e junho de 2026 revelou uma volatilidade extrema que levanta questões sobre a integridade metodológica ou a possível instrumentalização dos levantamentos. Candidatos como Omar Aziz e Maria do Carmo, líderes nas medições em diferentes momentos, registraram variações de dois dígitos em intervalos curtos de tempo, algo incomum em democracias estáveis na ausência de eventos disruptivos de grande escala. Uma variação de 10 ou mais pontos percentuais em poucas semanas, sem que haja acontecimento político de peso que justifique esse movimento, é tecnicamente improvável dentro das margens de erro declaradas pelos institutos. Quando isso se repete em múltiplas medições e de forma sistemática, o padrão começa a levantar questões legítimas sobre os métodos utilizados. RealTime1
A análise sustenta que possíveis “efeitos de casa”, ou seja, ajustes propositais no weighting e na ponderação dos dados, estariam servindo para moldar narrativas conforme o interesse político dos contratantes, transformando a pesquisa de intenção de voto em uma ferramenta de guerra psicológica. A discrepância contínua entre os levantamentos alimenta dois fenômenos perigosos: o bandwagon effect, onde se tenta induzir o eleitor a votar no suposto vencedor, e a desmobilização de bases eleitorais por meio de resultados que induzem o desânimo. Para o eleitor comum, esse ambiente de desconfiança é desorientador. A pesquisa eleitoral deveria funcionar como uma fotografia do momento, não como uma ferramenta estratégica. Quando perde essa característica, a democracia perde um instrumento de transparência. O TSE tem competência para fiscalizar os registros, mas não o poder de garantir a qualidade metodológica de cada levantamento. RealTime1
O que está em jogo para o estado além da disputa entre candidatos
Por trás das pesquisas e das estratégias eleitorais, há uma questão concreta que o próximo governador precisará responder: como o Amazonas avança para além da Zona Franca. A mudança recente no comando do Executivo estadual acelerou movimentos de bastidores e reposicionamento de lideranças. Analistas avaliam que o novo arranjo de poder tende a influenciar diretamente disputas para o governo, Senado e Câmara Federal. A tendência é de polarização regionalizada, com grupos buscando consolidar influência no interior. Além disso, há pressão por respostas imediatas da nova gestão em áreas críticas como saúde, segurança e infraestrutura. Essas demandas são concretas e urgentes para os amazonenses: o acesso à saúde no interior continua precário, com comunidades ribeirinhas dependentes de barcos-hospital cujas operações são intermitentes. A segurança pública em Manaus registrou melhoras nos índices de homicídio nos últimos anos, mas o crime organizado ligado ao narcotráfico segue ativo na fronteira e nas periferias da capital. RealTime1
O eleitor amazonense, portanto, chega às eleições de outubro com um cenário de múltiplas incertezas: candidatos empatados nas pesquisas, dados de confiabilidade questionável e um debate programático ainda incipiente. A polarização regional que os analistas identificam, com candidatos concentrando força em partes específicas do estado, pode levar a um segundo turno disputado mais pela geografia eleitoral do que pelas propostas. Manaus, com seus 2 milhões de habitantes, concentra mais da metade do eleitorado do estado, o que significa que o candidato que vencer na capital chega ao segundo turno com uma vantagem estrutural difícil de superar. Para o interior, onde residem centenas de comunidades com demandas muito específicas, o desafio é garantir que sua voz chegue às urnas com representatividade.
Fontes: Em Tempo | Realtime1 | Realtime1
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
