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Imigrantes do Brasil são fortes apoiadores da extrema-direita em Portugal

Lisboa — Aproximadamente 500 mil brasileiros obtiveram a cidadania portuguesa entre 2010 e 2023, segundo o Ministério da Justiça de Portugal. Esse contingente representa 5% da população lusitana, pouco para mexer no tabuleiro político — menos da metade exerce o direito ao voto no país —, mas barulhento o suficiente para atrair a atenção dos principais candidatos às eleições parlamentares de 10 de março, antecipadas pelo presidente da República, Marcelo Rebelo de Souza. É na ultradireita, contudo, que os brasileiros mais engajados politicamente estão se movimentando para ocupar espaço, precisamente no Chega, partido fundado há quase cinco anos por André Ventura, um ex-comentarista de futebol.

Muitos que acompanham o dia a dia da política portuguesa se perguntam como tantos brasileiros podem estar reforçando as alas do Chega, se, nas últimas eleições presidenciais no Brasil, o então candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, venceu, em Portugal, Jair Bolsonaro (PL) com mais de 60% dos votos. Para entender esse movimento, diz o jornalista, pesquisador e escritor Miguel Carvalho, é preciso recuar a 2019, ano do surgimento da legenda, que, no entender dele, não pode ser classificada como extremista. Não ainda.

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A forte ligação dos brasileiros que vivem em Portugal com o Chega passa por Lucinda Ribeiro, uma portuguesa que assinou a ficha de número seis do partido. Especialista em programação de dados — administrava cerca de 100 grupos nas redes sociais —, foi ela quem arregimentou evangélicos, especialmente, os oriundos do Brasil, para aderirem à agremiação conservadora que estava nascendo com a missão de acabar com o socialismo lusitano. A adesão dos brasileiros foi tão forte que surpreendeu os líderes da agremiação, e se acentuou depois da eleição de Ventura como deputado, o único do Chega à época.

Parte importante desses brasileiros evangélicos estava em Braga, cidade que fica ao Norte de Portugal e que se tornou um dos principais destinos dos que cruzaram o Atlântico no fluxo migratório acentuado a partir de 2017. Mas, como ressalta Carvalho, os brasileiros apoiadores do Chega estavam espalhados por todo o país. No caso da comunidade que se fixou em Braga, um grupo havia deixado o Brasil para uma formação acadêmica na Universidade do Minho, onde, recentemente, a carioca Grazielle Tavares, 49 anos, levou um soco na boca e um chute na barriga de um português por causa de um desentendimento por causa de um trabalho acadêmico.

“Esses brasileiros de Braga assumiram, ao longo do tempo, posições importantes dentro da estrutura do Chega. Também passaram a ter participação ativa na comunidade, por meio de associações e fundações”, destaca o jornalista, que acompanha o partido praticamente desde a fundação. No geral, esses brasileiros têm dupla nacionalidade e são das classes média e alta. Atuam como empresários, engenheiros civis, designers, programadores visuais, arquitetos. Também houve adesão de pastores das igrejas neopentecostais, que apelavam para o voto no Chega durante os cultos. “André Ventura soube capitalizar esse apoio, que não estava distribuído por outros partidos”, ressalta.

Ex-militante do PT
Depois de todo esse trabalho de consolidação do Chega, Lucinda acabou se desentendendo com a direção do partido, que, na visão dela, estava empurrando a legenda para uma direção menos radical, tornando-a mais parecida com as agremiações tradicionais. Desfiliada em 2021, ela migrou para o ADN, grupo de extrema-direita que surgiu durante a pandemia da covid-19, negando a ciência e espalhando mentiras. A arregimentação de brasileiros pelo Chega, porém, não parou. O espaço aberto por Lucinda acabou sendo ocupado por Cibelli Pinheiro, cuja militância política havia começado no Recife, nas bases do PT, partido com o qual a família dela tinha fortes ligações.

A partir do momento em que pisou em Portugal, Cibelli se radicalizou à direita. Em Braga, ela criou uma espécie de rede de apoio a imigrantes brasileiros, auxiliando-os na procura por emprego e moradia. Nesse mesmo período, a recifense entrou para a Associação Família Conservadora, reforçando o discurso do Chega, que encontrou eco não só entre os evangélicos, mas, também, nos grupos cujas pautas estão debaixo do guarda-chuva da guerra cultural, como a ideologia de gênero, a proteção das famílias, a redução dos direitos da população LGBTQIA e o controle da imigração, além de teorias conspiratórias como a de que a pandemia foi uma farsa criada pelo governo para controlar os cidadãos.

O protagonismo de Cibelli incomodou parte da diretoria do Chega em Braga. Presidente do partido na região, o deputado Filipe Melo, eleito em 2022, encampou a tese de que a brasileira chefiava uma seita religiosa, formada, sobretudo, por evangélicos. Apoiado por católicos radicais, inclusive do Opus Dei, alguns assumidamente fascistas, o parlamentar conseguiu isolar Cibelli, que disse, à época, estar sendo vítima de xenofobia dentro do partido. Mesmo descontente, continuou na legenda, mas sem cargos, apenas como militante. No ano passado, ela foi uma das principais organizadoras das manifestações contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na visita que o chefe de Estado fez a Portugal.

Melo, que é neto de imigrantes e tem um discurso contra a presença de estrangeiros em Portugal, é sobrinho-neto do cônego Eduardo Melo Peixoto, um dos ícones da igreja católica, com estátua em Braga e difusor da extrema-direita no país logo depois da Revolução dos Cravos, em 1974. O religioso, um ativista do anticomunismo, chegou a ser apontado como suspeito de terrorismo. “Com o afastamento de Lucinda — e, posteriormente, de Cibelli —, a corrente brasileira de evangélicos perdeu espaço no Chega, mas o apoio ao partido continua”, assinala Carvalho.

Mesmo não sendo relevante em número de votos, os brasileiros foram importantes para o salto espetacular dado pelo Chega nas eleições de 2022. O partido passou de um para 12 deputados, tornando-se a terceira bancada da Assembleia da República. “Nessa etapa, os responsáveis pelas redes bolsonaristas tiveram papel fundamental para arregimentar os eleitores mais propensos à extrema-direita”, destaca João Gabriel de Lima, escritor, jornalista e integrante do Observatório da Qualidade da Democracia da Universidade de Lisboa. A legenda de André Ventura venceu na maior parte dos consulados de Portugal no Brasil, com destaque para o do Rio de Janeiro, onde a comunidade portuguesa é grande. Entre os imigrantes com direito a participar das eleições lusitanas, os brasileiros garantiram dois terços dos votos à agremiação de ultradireita, pelos cálculos do presidente Marcelo Rebelo de Souza.

Mesmo com todo o histórico de participação e de impulsionamento do Chega, os brasileiros têm um único cargo eletivo em Portugal, o da deputada Maysa Fernandes, na Ilha da Madeira. Isso mostra, na opinião de Lima, o paradoxo do partido, que tem apoio de parte da maior comunidade de imigrantes em Portugal, mas limita a participação de brasileiros nos cargos de comando e defende linha-dura na questão migratória. Os cidadãos oriundos do Brasil, indicam todas as pesquisas, são as principais vítimas de xenofobia no país europeu, expressada, em grande parte, por apoiadores do Chega.

Vice-presidente do partido no Porto, o segundo colégio eleitoral de Portugal, o brasileiro Marcus Santos, 45, nega que haja preconceito dentro da legenda. “Sou brasileiro e negro. Em nenhum momento, fui discriminado pela cor da minha pele ou pelo meu sotaque”, garante ele, que deve integrar a lista de candidatos da agremiação nas eleições de 10 de março. “Serei o primeiro brasileiro eleito deputado no que chamamos de Portugal continental”, acredita. Uma de suas principais bandeiras é, justamente, o controle mais rigoroso da imigração.

“Sou a favor de se impor restrições à imigração. Realmente, Portugal, por ser um país com um grande número de idosos, precisa de mão de obra de fora. Mas deve haver um processo rigoroso, em que apenas trabalhadores qualificados, que vão agregar à economia, sejam liberados para morar em Portugal”, defende Santos, ex-lutador de jiu-jítsu e MMA e dono de uma rede de academias de artes marciais. “Morei nos Estados Unidos e, lá, só liberam a entrada de trabalhadores com habilidades muito específicas. Quando as portas estão muito abertas, entra todo tipo de imigrante, que acaba sendo explorado, às vezes, até como escravo. Depois, vem a violência”, acrescenta.

Coligação pelo poder
Dentro do Chega, destaca Marcus Santos, a perspectiva é que o partido eleja entre 40 e 50 deputados nas próximas eleições. Com isso, a legenda será fundamental para que uma coalizão de direita possa formar o próximo gabinete de governo em Portugal. André Ventura, reeleito neste fim de semana presidente da agremiação, diz que será o próximo primeiro-ministro do país, pois os portugueses não querem mais o PS (Partido Socialista), pelo histórico de corrupção, nem o PSD (Partido Social Democrata), pela constante omissão, na opinião dele.

As pesquisas de intenção de votos dão ao partido entre 13% e 17% da preferência do eleitorado. “Não há dúvidas de que o Chega terá um enorme crescimento no próximo pleito, pelo menos, dobrando de tamanho”, prevê Miguel Carvalho. Nesse contexto, a legenda poderá ser decisiva para a formação de uma maioria que resultará no próximo governo.

Há um corrente de especialistas que vê a possibilidade de uma coligação entre o PSD, que largaria na frente, com o Chega, a despeito de o atual presidente da legenda social-democrata, Luís Montenegro, criar uma espécie de cordão sanitário ao jurar que não se aliará à ultradireita. Mas quem conhece as entranhas do partido não descarta a hipótese de Montenegro ser escanteado e um líder de fora ser convocado com a missão de fechar parceira com o Chega. Essa pessoa seria Pedro Passos Coelho, que já foi primeiro-ministro e padrinho político de André Ventura quando ele entrou para a política pelo PSD.

Em 2017, Ventura foi eleito vereador da Câmara de Loures com a maior votação que um candidato do PSD já havia registrado. Ele atraiu a atenção dos eleitores com um discurso radical contra os ciganos. A ala mais democrática do partido pediu a saída do então vereador da legenda, acusado de extremismo, mas Passos Coelho o segurou. Portanto, não há como dizer que, efetivamente, uma aliança entre o PSD e o Chega esteja fora de cogitação. “Se houver maioria de direita, será preciso entender o voto do povo”, frisa Miguel Relvas, ex-ministro de Assuntos Parlamentares e filiado ao PSD.

Ele rechaça a tese de que, amarrado ao Chega, o PSD venha a ser engolido pela legenda de André Ventura. Na avaliação dele, a estrutura social-democrata é sólida e enraizada, como a do MDB no Brasil. “Não podemos comparar o PSD com o que ocorreu com o PSDB no Brasil, em que o partido se desmanchou, vítima da Lava-Jato, e cujo espaço foi ocupado pelo partido de Jair Bolsonaro”, diz. Ele assinala, ainda, que é a elite brasileira que vive em Portugal a maior apoiadora do Chega, primeiro, porque não enfrenta os problemas dos imigrantes comuns, depois, porque sente saudades do ex-presidente que, no início do ano, gravou um vídeo em apoio a Ventura.

O jornalista e pesquisador Miguel Carvalho está convencido de que o discurso do Chega já mexeu com a estrutura de todos os partidos. E a base da legenda de André Ventura está sendo engordada com jovens que se sentem frustrados por estarem, muitas vezes, desempregados e morando com os pais; com aqueles que se apegam a um Portugal mítico, que nunca existiu; e com os brasileiros, que, mesmo não fechando com toda a plataforma da agremiação, apoiam três ou quatro temas que vão na linha do conservadorismo em que acreditam.

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